A indústria automobilística alemã, celebrada por décadas pela engenharia de precisão e pelo desempenho de marcas como Mercedes-Benz, BMW, Audi e Volkswagen, enfrenta uma virada de pista. Depois de dominar mercados globais no pós-guerra, o setor vê suas vendas encolherem, empregos serem cortados e fábricas correrem risco de fechamento, enquanto a China salta à frente na produção e comercialização de veículos elétricos.
Dos recordes em Nürburgring à perda de fôlego
O Nürburgring, circuito de 20 km nas colinas de Eifel, simboliza a tradição alemã em alta performance. “Se um carro faz bom tempo aqui, tudo funciona”, afirma o piloto e influenciador Misha Charoudin, que descreve a pista como “melhor que uma montanha-russa”. Essa reputação, somada às Autobahnen sem limite de velocidade, ajudou a forjar o prestígio global das montadoras alemãs.
Entretanto, sinais de desgaste aparecem desde 2015, quando o Dieselgate custou mais de €30 bilhões à Volkswagen e abalou a confiança nos fabricantes do país. A pressão por tecnologias mais limpas, acelerada pelo Acordo de Paris, intensificou o desafio, enquanto a Tesla avançava nas vendas de veículos elétricos.
China vira o jogo elétrico
No passado, a China era a “terra prometida” das montadoras germânicas. Na década de 1980, a Volkswagen firmou joint ventures que lhe garantiram participação de mercado próxima a 50%. Até pouco tempo, um em cada três carros vendidos no país asiático levava emblema alemão.
A virada começou em 2009, quando Pequim lançou um amplo programa de incentivo a veículos elétricos. Hoje, um de cada dois automóveis comercializados na China é elétrico, quase todos de marcas locais. A BYD, por exemplo, ultrapassou recentemente a Tesla em vendas globais de elétricos.
“Os chineses tiveram a oportunidade única de superar a Alemanha — e conseguiram”, avalia Manuel Vermeer, professor da Universidade de Ciências Aplicadas de Ludwigshafen. Para ele, a postura “arrogante” de parte da indústria alemã, que subestimou a velocidade de desenvolvimento chinês, contribuiu para a atual dependência, sobretudo na oferta de baterias.
Olhos na Índia, mas sem repetir o boom chinês
Com o espaço na China reduzido, as montadoras voltam-se à Índia, hoje o país mais populoso do mundo. Em Chennai, centro automotivo apelidado de “Detroit da Índia”, a BMW produz cerca de 80 veículos por dia — longe dos 1,4 mil fabricados em sua principal instalação na Alemanha, mas com crescimento superior a 10% ao ano.
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“Há uma corrida para o mercado indiano. Quem não entrar agora pode perder oportunidades”, admite Thomas Dose, gerente da planta da BMW em Chennai. Ele pondera, porém, que o ritmo não deve repetir o boom chinês.
Reaprendizado em marcha
Beatrix Keim, ex-executiva da Volkswagen na China, afirma que as montadoras alemãs “entenderam que precisam ser mais rápidas e descer do pedestal”. Enquanto isso, fabricantes chineses e de outros países já testam seus modelos elétricos no próprio Nürburgring — um sinal de que o circuito símbolo da engenharia alemã virou terreno de disputa global.
Charoudin alerta para o risco de um revés definitivo: “Olhem para a Nokia. Ela prosperava e, de repente, ficou para trás. O mesmo pode acontecer com quem não acompanhar a mudança”.
Com informações de iG Carros